Guia técnico · CE e pH

CE e pH para muda de café: entenda os números

11 min de leitura · Atualizado em setembro de 2026 · substratoparacafe.com.br

Resposta rápida

CE e pH para muda de café são dois números de ficha técnica que precisam ser lidos com o protocolo certo: a CE do substrato (extrato 1:1,5) deve ficar entre 0,4 e 1,5 mS/cm e o pH entre 5,5 e 6,5. O "1,2 mata café" vem da CE da água de irrigação, não do substrato — Karasawa et al. mediram desenvolvimento satisfatório até 5,40 dS/m de extrato de substrato. Vale para viveiristas que compram pó de coco lavado; se a muda está com clorose ou queima de pontas, meça primeiro a água de irrigação e o lixiviado antes de culpar o substrato.

No trade de mudas de café circula há anos a afirmação de que "substrato com CE acima de 1,2 mS/cm queima café". É uma das máximas mais repetidas em viveiros — e uma das menos fundamentadas em dados primários. Este artigo desmonta o mito, apresenta o que a pesquisa brasileira realmente encontrou, e explica por que a CE do saco do substrato não é o mesmo número que a raiz da muda enxerga.

Folhas e frutos de cafeeiro em fase vegetativa
A interpretação correta da CE do substrato começa com entender qual número está sendo medido — e em que protocolo.

1. De onde vem o "CE 1,2 mata café"?

De estudos que mediram água de irrigação e extrato de solo — não substrato — e cujo número migrou para o trade sem conversão. O número 1,2 aparece na literatura cafeeira em pelo menos três contextos diferentes, medindo coisas completamente diferentes:

A hipótese mais plausível é que o "1,2" migrou da literatura de salinidade de água de irrigação para o trade de substratos sem a conversão de unidades necessária — e passou a ser repetido como se fosse um limite de CE de substrato para café. Não é.

2. Qual CE de substrato a muda de café realmente tolera?

Até 5,40 dS/m de extrato de substrato, segundo o único estudo brasileiro que mediu isso diretamente. O único estudo brasileiro que mediu diretamente a CE do extrato do substrato (não da água de irrigação) em mudas de Coffea arabica é a série de Karasawa et al. (ESALQ/USP e UFLA, 2000–2003). Resultados:

Achado principal: mudas de café cv. Acaiá Cerrado MG 1474 desenvolveram-se satisfatoriamente até CE do extrato de substrato de 5,40 dS/m. Somente acima de ~8,8–11,5 dS/m o estudo registrou dano e morte. O limite tolerado é 4–5 vezes maior que o "1,2" que circula no trade.

A diferença entre 1,2 e 5,4 não é pequena — é uma ordem de magnitude em termos de manejo. Significa que um substrato comercial com CE 1,1 mS/cm não está "na borda da morte" — está confortavelmente dentro da janela de tolerância da cultura, com margem enorme para a fertirrigação elevar a CE da zona radicular durante o ciclo sem causar estresse.

3. Por que a CE do saco é diferente da CE que a raiz enxerga?

Porque a ficha técnica mede o produto em repouso e a raiz vive uma CE que sobe com a fertirrigação e cai com a lavagem. A CE impressa na ficha técnica do substrato é medida em laboratório, em uma amostra do produto antes de qualquer uso, com um protocolo específico de extração (geralmente 1:1,5 volume de água por volume de substrato — método Sonneveld, padrão na Europa e adotado pela MAPA IN 17/2007 no Brasil). Essa CE é um snapshot do produto em repouso, sem irrigação, sem fertirrigação, sem acumulação de sais.

A CE que a raiz enxerga ao longo do ciclo é dinâmica — sobe com a fertirrigação acumulada, desce com a lâmina de lavagem, varia com a evapotranspiração entre regas. Carvalho et al. (2021, UNESP/Botucatu) mediram pó de coco fresco a 0,5 dS/m antes do plantio — e esse mesmo substrato chegou a 1,72–1,89 dS/m após 175 dias de cultivo de pimentão com fertirrigação contínua. O substrato que começa baixo sobe; o substrato que começa alto cai com a lavagem.

O que está sendo medidoProtocolo típicoValor para café
CE do substrato (ficha técnica)Extrato 1:1,5 Sonneveld0,4–1,5 mS/cm
CE da água de irrigação (CEa)Leitura direta do reservatórioabaixo de 1,2 dS/m
CE do extrato de solo (CEea)Extrato 1:5 Embrapa/UFLAaté 5,4 dS/m tolerado
CE por método pour-throughLixiviado pós-irrigaçãovariável — monitorar

4. Qual o pH certo do substrato em cada fase da muda de café?

De 5,5 a 6,5 na maioria das fases e 5,8 a 6,5 na sementeira. O pH do substrato para café segue a mesma lógica do pH do solo para café adulto — a janela é 5,5 a 6,5 para a maioria das fases de viveiro. Na sementeira (germinação até cotilédone aberto), o pH pode ser um pouco mais ácido (5,8–6,5) sem problema. Acima de 6,8, o bloqueio de micronutrientes (especialmente ferro e zinco) começa a aparecer nas folhas jovens como clorose internerval.

O pó de coco natural tem pH natural de 5,5–6,2, dependendo da safra e do processamento. Isso o coloca dentro da janela ideal sem necessidade de correção para a maioria das fases de produção de muda de café. Se o substrato chegar com pH abaixo de 5,2, uma pequena dose de calcário dolomítico no enchimento da sacolinha corrige — mas verifique com o laudo antes de aplicar, pois excesso de calcário eleva demais o pH.

5. Como controlar a CE do substrato durante o ciclo?

Com lâmina de lavagem, não com troca de substrato. Em substratos com CE inicial mais alta (pó de coco bruto, 1,5–3,0 mS/cm), a solução não é trocar o substrato — é lavar. Embrapa (2001) mostrou que uma passagem de água baixa a CE do pó de coco bruto de 4,7 mS/cm para abaixo de 1,5 mS/cm. Giuffrida & Lipari (2003, ISHS) demonstraram que uma lâmina diária de apenas 220 g de água por planta por dia — além da fertirrigação normal — foi suficiente para prevenir acumulação de sais em substrato de coco ao longo de todo o ciclo de cultivo.

Detalhe de folhas de café sendo colhidas em pé adulto
Monitorar a CE da lixívia (método pour-through) é a forma mais prática de acompanhar a salinidade da zona radicular ao longo do ciclo.

Para o viveiro de café, a prática recomendada é simples: use substrato com CE de ficha técnica abaixo de 1,5 mS/cm; irrigue diariamente nas fases iniciais com água de CEa abaixo de 1,2 dS/m; e aplique uma lâmina de lavagem semanal se o climograma indicar evapotranspiração alta. Não há necessidade de monitoramento sofisticado para a maioria dos viveiros — basta um condutivímetro de bolso e uma amostra de lixívia semanal.

6. A muda de café está mal: como saber se a culpa é do substrato?

Comece pela água de irrigação, depois pelo lixiviado — o substrato da embalagem é a última hipótese. Se as mudas estão mostrando clorose, queima de pontas ou crescimento lento, a primeira verificação não é o substrato — é a água de irrigação. A CE da água de captação local (poço artesiano, açude, córrego) varia enormemente por região e estação. Água com CEa acima de 0,8 dS/m em regiões semiáridas pode acumular sais no substrato ao longo de semanas de irrigação diária, mesmo com substrato impecável.

O diagnóstico correto segue essa ordem: (1) meça a CE da água de irrigação; (2) meça o pH e a CE do lixiviado (pour-through) de algumas sacolinhas ou tubetes representativos; (3) compare com os parâmetros alvo. Só depois de verificar água e zona radicular, olhe para o substrato da embalagem como causa isolada.

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Perguntas frequentes

CE de substrato acima de 1,2 mS/cm mata muda de café?

Não. O 1,2 vem da salinidade da água de irrigação (Figueiredo et al., 2006), não do substrato. Karasawa et al. (ESALQ/USP e UFLA, 2000–2003) mediram desenvolvimento satisfatório de Coffea arabica até CE de extrato de substrato de 5,40 dS/m; o dano só apareceu acima de 8,8 a 11,5 dS/m.

Qual CE de substrato usar para muda de café?

CE de ficha técnica entre 0,4 e 1,5 mS/cm (extrato 1:1,5, método Sonneveld), com água de irrigação abaixo de 1,2 dS/m e lâmina de lavagem semanal quando a evapotranspiração for alta.

Qual pH o substrato para muda de café deve ter?

Entre 5,5 e 6,5 na maioria das fases; na sementeira, 5,8 a 6,5. Acima de 6,8 aparece clorose internerval por bloqueio de ferro e zinco. O pó de coco natural fica em 5,5 a 6,2 sem correção.

Como baixar a CE de um pó de coco bruto?

Lavando: uma passagem de água reduz a CE de 4,7 mS/cm para abaixo de 1,5 mS/cm (Embrapa, 2001). Durante o ciclo, uma lâmina de 220 g de água por planta por dia além da fertirrigação evita acúmulo de sais (Giuffrida & Lipari, 2003).

A muda de café está com clorose: o problema é o substrato?

Verifique primeiro a água de irrigação, depois o pH e a CE do lixiviado (pour-through) de sacolinhas representativas. Só depois disso olhe para o substrato da embalagem como causa isolada.

Leia também neste site:

Referências técnicas

Leitura de base sobre os parâmetros tratados neste guia: